Caleidoscópio
16/06/2018

Para começarmos a conversar, vamos fazer um teste bem rápido. Está pronto? Pois bem, vamos lá….Imagine algo relacionado a conhecimento. Pronto. Provavelmente a primeira coisa que passou pela sua cabeça foi algo como um cientista de jaleco em um laboratório cheio de coisas perigosas e coloridas em frascos bem legais. Ou então em um professor em uma sala de aula ensinando algo como biologia, física, química ou matemática, ou até mesmo uma capa muito legal de uma revista onde se vê um grande átomo ou uma molécula gigantesca de DNA com um título em letras garrafais anunciando as últimas descobertas nessas áreas. Mas tipicamente as imagens são essas: a de cientistas, ou professores, ou mesmo de pessoas aprendendo ciências, principalmente as ciências exatas. No entanto, tem algo que precisamos saber. Nem todo conhecimento tem a ver com ciências. Isso mesmo. É possível (e altamente recomendável) que você desenvolva conhecimento não científico. Mais do que isso, ao contrário do que somos levados a acreditar, o conhecimento não científico é extremamente importante.

Mas, como nem tudo é tão simples, que tal falarmos um pouco de conhecimento?

Para começar, precisamos entender um pouco mais sobre o conhecimento. Existe muito debate sobre o que é conhecimento, e por hora não entraremos nesse assunto;afinal, de tão complexo, ele poderia render vários outros textos. O que nos importa, por enquanto, é saber que é quase consenso que existem diferentes formas de conhecimento, uma das quais é o conhecimento científico.

Além do conhecimento científico, podemos falar do conhecimento mitológico, conhecimento teológico, conhecimento empírico e conhecimento filosófico. Outras pessoas podem destacar ainda outros tipos de conhecimento. A questão central é, portanto, o que difere um conhecimento de outro e por que o conhecimento científico é tão valorizado em detrimento dos outros tipos. De forma geral é muito difícil dizer o que é cada um desses conhecimentos, e diferentes pessoas os vêem de maneiras ligeiramente diferentes sem que necessariamente estejam erradas. Contudo, podemos dizer que os diversos conhecimentos têm, entre sí, coisas em comum e que permitem agrupá-los em:

Conhecimento mitológico: É o conhecimento de mitos e lendas, muitos dos quais dão explicações anedóticas ou fabulosas para fenômenos naturais. São ligados à primeira tentativa que os povos fizeram de explicar as forças da natureza e origem do universo, como por exemplo o mito de que a via láctea teria se originado do leite derramado pela deusa Hera, após amamentar Hércules.

Conhecimento teológico: É o conhecimento religioso e das coisas divinas. É baseado unicamente na fé e não necessita de nenhuma prova. Da mesma forma, não é capaz de fornecer qualquer verificação universal e acima de dúvidas de sua veracidade, além de experiências individuais que não podem ser experimentadas exatamente da mesma forma por duas pessoas diferentes. Além disso, muda muito pouco ao longo dos anos, tendendo a permanecer quase inalterado ao longo dos séculos. A esse tipo de conhecimento damos o nome de dogmático.

Conhecimento empírico: É o conhecimento baseado em experiências do nosso dia-a-dia. Embora muitas vezes seja útil, pode nos levar a conclusões erradas e deve sempre ser ponderado. Por exemplo, ao vermos alguém passar mal ao ingerir um suco de laranja em um determinado estabelecimento, empiricamente iremos concluir que não é uma boa ideia tomar do mesmo suco. Mas seria um erro nunca mais tomar o suco daquele estabelecimento ou mesmo imaginar que todo suco de laranja faz mal, já que sequer temos certeza que o suco foi responsável pelo acontecimento, e que essa experiência observada não necessariamente reflete uma relação de causa-efeito.

E por que, então, o conhecimento científico é tão valorizado em relação aos demais?

Primeiro precisamos entender um pouco do conhecimento científico. Embora seja muito difícil dizer exatamente o que ele é, assim como os demais tipos, podemos afirmar algumas coisas sobre ele das quais todos estão bem convencidos.

De maneira rápida (e provavelmente imprecisa), só para podermos conversar, vou dizer que o conhecimento científico é aquele que passa por uma série de testes e verificações criteriosas, realizadas por diferentes especialistas naquele assunto,antes de ser considerado verdade - e, mesmo assim, está sujeito a mudar. Isso faz com que seja muito mais provável que o conhecimento científico seja o conhecimento que fornece verdades (não imutáveis, não absolutas) sobre a maneira como as coisas funcionam e que não leve a conclusões erradas baseadas apenas em impressões e senso comum.

São essas características que fazem dele uma boa maneira de olhar para o mundo. Mais do que isso, é esse tipo de conhecimento que reflete a ideia para a qual a escola foi criada, ou seja, a de fornecer conhecimento verdadeiro e livre para todos os homens, e portanto é o sistema de conhecimento que rege a educação escolar. Isso não quer dizer, claramente, que os outros tipos de conhecimento devem ser deixados de lado na escola, porém é o conhecimento científico que deve ser sua base.

É pelo fato de que o conhecimento científico é aquele que mais valoriza-se na escola que temos a visão errada de que ele é o único que importa. De fato, é muito importante que em maior ou menor grau todos nós tenhamos o conhecimento científico, pois é o conhecimento que dá base à nossa sociedade, às nossas técnicas e a uma parte da nossa própria cultura.

No final das contas, o que importa é ter diferentes tipos de conhecimento, pois em determinados momentos de nossa vida cada um deles será requisitado de alguma maneira, e será bom ter pelo menos um pouco dele disponível nessa hora. O conhecimento científico, embora tenha sua utilidade, não ajudará muito quando eu quiser pintar uma nova monalisa. Do mesmo jeito, não adianta muito escrever que na física as coisas acontecem como acontecem porque “Deus é sábio”; você ainda vai tirar zero.


02/04/2018



Regras e Métodos: Ciência e Cientistas

Quando queremos descobrir coisas, tentamos seguir alguma regra, alguma sequência de passos para chegar à verdade. Dentro disso, é possível definir certas regras úteis para quase todas as tentativas de se descobrir algo. Quando alguém fala na existência de um Método Científico, imaginamos a existência de cinco ou seis passos impressos em sulfite, colocados na parede e que todos são obrigados a seguir, sempre os mesmos passos, exatamente da mesma maneira e na mesma ordem.

O que acontece, na realidade, é que cada área da ciência (física, biologia, matemática, história etc.) tem sua própria sequência de passos, e mesmo numa área da ciência, pesquisas diferentes podem utilizar métodos diferentes. A única regra geral é que o método que os pesquisadores utilizaram tem que ser clara e concisamente descrito quando se publica os resultados em um artigo científico porque algo que acontece nas ciências é: outros pesquisadores vão ler, procurar falhas no método utilizado e depois tentarão reproduzir a pesquisa e chegar aos mesmos resultados.

Ou seja, os mesmos testes têm que dar os mesmos resultados independente de quem os faça. Isso serve para evitar fraudes, erros no método utilizado ou até uma coincidência: pode ser que o método não esteja errado e nem haja fraudes, mas o resultado não represente uma verdade, por isso é importante que o método utilizado seja deixado claro e que outros cientistas tentem fazer os mesmos testes que você fez.

Um esclarecimento a se fazer é: tecnicamente, a ciência segue métodos, a ciência procura resultados e fatos e muda de ideia se uma prova for apresentada, mas os cientistas não são necessariamente assim. Cientistas são seres humanos, são falhos, eles podem ter tendências e opiniões e às vezes podem demorar para mudar de opinião mesmo com evidências, eles podem ter crenças e ideias que claramente não são verdades.

Por exemplo, demorou-se até que a Evolução ou a Relatividade fossem aceitas como verdades científicas. Os cientistas trabalham com as ideias que os fatos e os dados até então disponíveis permitem concluir. Quando alguém chega com dados ou fatos novos e com uma ideia muito diferente, é normal uma recusa inicial em se aceitar tal ideia. Mas cientistas se vão, novas pessoas, jovens e não tão presas às ideias antigas, tornam-se cientistas e os ideais da ciência acabam por fazer a verdade prevalecer. Mas atenção, isso não é desculpa para validar qualquer ideia que seja rejeitada pela ciência em um argumentos do tipo “se até Einstein duvidou da Mecânica Quântica, quem são esses cientistas para falar que astrologia não é ciência”.

Ou então, aproveitando o tema astrologia, pelas regras e métodos e pela ausência de provas é completamente seguro dizer que astrologia não é científico, mas podem existir cientistas (que seguem métodos e buscam fatos) que acreditem em astrologia. Outros cientistas lerem, procurarem falhas e refazerem experimentos também evita que opiniões e crenças pessoais do cientista que fez o experimento influenciem na conclusão final do trabalho.

Teste suas Hipóteses

Algumas outras regras podem ser bem úteis de se saber para entender como a ciência funciona quando alguém estiver falando que determinada pesquisa (ou método) não faz sentido. Uma dessas regras é a de testar suas hipóteses. Se os testes a contrariam, você a revê, analisa o que pode estar errado e a refaz. Se os testes confirmam sua hipótese, você passa a confiar mais naquilo que você supôs, mas continua pensando em maneiras de continuar realizando testes. Quantos mais testes forem feitos confirmando sua hipótese, mais confiável ela é. Mas basta um teste que contrarie a sua hipótese para que você precise se sentar e rever suas ideias. Ela não precisa ser toda descartada, mas precisa ser corrigida.

Uma outra regra intimamente ligada à essa é a ideia de falseabilidade. Para você poder testar a sua hipótese, ela precisa poder ser testada, ou seja, ela precisa apresentar pontos que possam ser provados verdadeiros ou falsos por evidências, seja através de um experimento, um registro fóssil ou uma pesquisa estatística. Se você formular uma hipótese que não tem como passar por testes, não é possível saber se ela é verdadeira ou falsa. Por isso, para uma hipótese ser considerada científica, ela precisa ser testável e falseável. Um exemplo clássico é o de um amigo que chega e conta que tem um dragão na garagem da casa dele. Você pede para ver e ele diz que o dragão é invisível; você pede para medir o calor do ambiente em busca de aumentos de temperatura e ele diz que o fogo do dragão não é quente; você pede para tentar registrar pegadas e ele diz que o dragão não interage com a matéria, não deixando pegadas ou marcas.

Um dragão que é invisível, com chamas sem calor e que não interage com nenhum tipo de matéria não tem como ser provado falso, ou seja, não é falseável porque você não tem como realizar testes: a hipótese de que há um dragão não é testável. Por isso, você nunca saberá se isso é realmente verdade ou não, então se diz que essa hipótese não é científica e a ideia de se há ou não um dragão dentro da garagem do seu amigo não faz parte do conhecimento científico. Outro exemplo adaptado pode ser a ideia de que há um nono planeta no sistema solar, entre a Terra e Marte, mas que é pequeno demais para ser detectado por qualquer tecnologia humana. Esses exemplos são criados para ilustrar que a impossibilidade de provar que uma ideia é falsa não significa que ela seja verdadeira, impossibilitando que seja tratada como uma hipótese científica.


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