Caleidoscópio
14/04/2018

Um pequeno passo dado a contragosto, mero reflexo dos meus instintos incontroláveis, pôs à prova minha patética e anormal capacidade de compreender a natureza humana como ninguém: o fato do garoto intolerável do 1º D, chamado por todos de... hm, não é importante (obviamente “aquele menino” não podia ser seu verdadeiro nome), apenas sabia que estava caído como uma cadeira muito usada, e infelizmente o coloquei novamente no centro das atenções.

Não tive culpa, pois imediatamente após as provas de matemática a maioria dos alunos do primeiro ano do ensino médio tende a procurar uma forma de reaver o que foi perdido (o cérebro, o fôlego, as fórmulas, o pequeno embrulho com a cola ou a convicção de que continuará na escola no ano seguinte). Por fim, ofereci minha educada (porém pérfida, hahahahaha) condolência. Não podia me dar o luxo de fingir que realmente estava tudo bem.

Ah, ia me esquecendo, sinto muitíssimo de não os ter informado de que sou apenas uma consciência coletiva.

Fui criada por Émile Durkheim para dar complemento às suas teorias sociológicas, e sinceramente não me agrada confessar que sou uma ideia abdicada, tal qual meu primo, socialismo utópico de Karl Marx. Cansada de vagar observando os comportamentos, atitudes, hábitos e principalmente vícios humanos de uma sociedade que se nega às próprias emoções, resolvi me mudar da França, conhecer consciências coletivas diferentes, expandir minha cultura. Até que encontrei o meio "adequado" para desenvolver os pensamentos primorosos que me trouxeram ao mundo: o colégio Émile Durkheim, em uma metrópole brasileira.

O passo mais corrosivo foi a reinvenção, não pensem que ser o cotidiano é tarefa fácil, principalmente vivendo com adolescentes brasileiros! Maravilhosos, bem educados, inteligentes e participativos... Nada disso. Talvez participativos.

Devo lembrar a você de que o primeiro bimestre de matemática foi uma tortura para 62,85% dos alunos. E como minha tarefa é contribuir para a socialização dos membros dessa sociedade, nada melhor que experiência prática. Se existe mesmo uma dimensão de dor, sofrimento e angústia, deve ser muito próxima à cerimônia de entrega das notas.

Gabriel não era exceção na situação a que me refiro (sim... o menino em quem tropecei e sim... ele já estava de recuperação). Não o vejo andar com muitos amigos, não tem uma boa relação com os professores e passa os intervalos pensando em vídeo-games, séries e memes (ainda estou trabalhando para entender o propósito disso, se é que há um).

Estou decidida a fazer alguma coisa! Posso ser uma ideia um pouco velha (não me force a dizer minha idade, sei que você sabe que isso é tabu para uma senhora ideia), mas estou disposta a me reinventar e autorreciclar para trazer um pouco de paz e reflexão para um jovem perdido...


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