Caleidoscópio
02/04/2018



Regras e Métodos: Ciência e Cientistas

Quando queremos descobrir coisas, tentamos seguir alguma regra, alguma sequência de passos para chegar à verdade. Dentro disso, é possível definir certas regras úteis para quase todas as tentativas de se descobrir algo. Quando alguém fala na existência de um Método Científico, imaginamos a existência de cinco ou seis passos impressos em sulfite, colocados na parede e que todos são obrigados a seguir, sempre os mesmos passos, exatamente da mesma maneira e na mesma ordem.

O que acontece, na realidade, é que cada área da ciência (física, biologia, matemática, história etc.) tem sua própria sequência de passos, e mesmo numa área da ciência, pesquisas diferentes podem utilizar métodos diferentes. A única regra geral é que o método que os pesquisadores utilizaram tem que ser clara e concisamente descrito quando se publica os resultados em um artigo científico porque algo que acontece nas ciências é: outros pesquisadores vão ler, procurar falhas no método utilizado e depois tentarão reproduzir a pesquisa e chegar aos mesmos resultados.

Ou seja, os mesmos testes têm que dar os mesmos resultados independente de quem os faça. Isso serve para evitar fraudes, erros no método utilizado ou até uma coincidência: pode ser que o método não esteja errado e nem haja fraudes, mas o resultado não represente uma verdade, por isso é importante que o método utilizado seja deixado claro e que outros cientistas tentem fazer os mesmos testes que você fez.

Um esclarecimento a se fazer é: tecnicamente, a ciência segue métodos, a ciência procura resultados e fatos e muda de ideia se uma prova for apresentada, mas os cientistas não são necessariamente assim. Cientistas são seres humanos, são falhos, eles podem ter tendências e opiniões e às vezes podem demorar para mudar de opinião mesmo com evidências, eles podem ter crenças e ideias que claramente não são verdades.

Por exemplo, demorou-se até que a Evolução ou a Relatividade fossem aceitas como verdades científicas. Os cientistas trabalham com as ideias que os fatos e os dados até então disponíveis permitem concluir. Quando alguém chega com dados ou fatos novos e com uma ideia muito diferente, é normal uma recusa inicial em se aceitar tal ideia. Mas cientistas se vão, novas pessoas, jovens e não tão presas às ideias antigas, tornam-se cientistas e os ideais da ciência acabam por fazer a verdade prevalecer. Mas atenção, isso não é desculpa para validar qualquer ideia que seja rejeitada pela ciência em um argumentos do tipo “se até Einstein duvidou da Mecânica Quântica, quem são esses cientistas para falar que astrologia não é ciência”.

Ou então, aproveitando o tema astrologia, pelas regras e métodos e pela ausência de provas é completamente seguro dizer que astrologia não é científico, mas podem existir cientistas (que seguem métodos e buscam fatos) que acreditem em astrologia. Outros cientistas lerem, procurarem falhas e refazerem experimentos também evita que opiniões e crenças pessoais do cientista que fez o experimento influenciem na conclusão final do trabalho.

Teste suas Hipóteses

Algumas outras regras podem ser bem úteis de se saber para entender como a ciência funciona quando alguém estiver falando que determinada pesquisa (ou método) não faz sentido. Uma dessas regras é a de testar suas hipóteses. Se os testes a contrariam, você a revê, analisa o que pode estar errado e a refaz. Se os testes confirmam sua hipótese, você passa a confiar mais naquilo que você supôs, mas continua pensando em maneiras de continuar realizando testes. Quantos mais testes forem feitos confirmando sua hipótese, mais confiável ela é. Mas basta um teste que contrarie a sua hipótese para que você precise se sentar e rever suas ideias. Ela não precisa ser toda descartada, mas precisa ser corrigida.

Uma outra regra intimamente ligada à essa é a ideia de falseabilidade. Para você poder testar a sua hipótese, ela precisa poder ser testada, ou seja, ela precisa apresentar pontos que possam ser provados verdadeiros ou falsos por evidências, seja através de um experimento, um registro fóssil ou uma pesquisa estatística. Se você formular uma hipótese que não tem como passar por testes, não é possível saber se ela é verdadeira ou falsa. Por isso, para uma hipótese ser considerada científica, ela precisa ser testável e falseável. Um exemplo clássico é o de um amigo que chega e conta que tem um dragão na garagem da casa dele. Você pede para ver e ele diz que o dragão é invisível; você pede para medir o calor do ambiente em busca de aumentos de temperatura e ele diz que o fogo do dragão não é quente; você pede para tentar registrar pegadas e ele diz que o dragão não interage com a matéria, não deixando pegadas ou marcas.

Um dragão que é invisível, com chamas sem calor e que não interage com nenhum tipo de matéria não tem como ser provado falso, ou seja, não é falseável porque você não tem como realizar testes: a hipótese de que há um dragão não é testável. Por isso, você nunca saberá se isso é realmente verdade ou não, então se diz que essa hipótese não é científica e a ideia de se há ou não um dragão dentro da garagem do seu amigo não faz parte do conhecimento científico. Outro exemplo adaptado pode ser a ideia de que há um nono planeta no sistema solar, entre a Terra e Marte, mas que é pequeno demais para ser detectado por qualquer tecnologia humana. Esses exemplos são criados para ilustrar que a impossibilidade de provar que uma ideia é falsa não significa que ela seja verdadeira, impossibilitando que seja tratada como uma hipótese científica.



Categorias
Ciência e cotidiano
Como descobrimos coisas?
Mulheres na ciência
A arte de ensinar
Por que tudo acontece?
Do que tudo é feito?
O mundo dos números
O que nos faz vivos?
Um pouco de fantasia
Sobre
Um veículo de transmissão do conhecimento científico onde o principal foco é tentar expor esse conhecimento de maneira simples, acessível ao grande público, e com ênfase no que há de belo e interessante. Não deixemos morrer a nossa curiosidade!